|
A Pesca em falésias e
a segurança.
|
“Roendo
uma laranja na falésia...” como diz a conhecida canção,
hoje em dia pode não ter um final assim tão poético.
Uma grande parte da nossa costa, principalmente a Norte
do rio Tejo, é constituída por falésias arenosas ,
rochosas ou mistas, com altitudes médias de 60 metros,
e sendo este o ponto de contacto entre a terra e o mar ,
é fácil perceber as agressões a que estão expostas.
Os ventos, a chuva, a descida e subida das marés, a força das ondas, as grandes
variações de temperatura, etc., causam o desgaste das
rochas e a movimentação das areias. Actualmente em
todo o mundo cerca
de 80 % das
zonas costeiras sofrem um forte
processo de erosão, sendo o
litoral português um dos que apresenta uma das
situações mais graves e instáveis.
A
situação é agravada pelo facto da costa Portuguesa não
possuir grandes defesas naturais, o que causa uma grave
movimentação e desaparecimento de
areias.
|
|

"Actualmente
em todo o mundo cerca
de 80% das
zonas costeiras sofrem um forte
processo de erosão..."
|
|
Para
além das causas naturais, a acção do homem, como a
extracção de areias, obras na orla costeira e a
construção de dezenas de barragem em Portugal nos últimos
30 anos, têm uma influencia directa, já que é
impedida a passagem de sedimentos para o mar,
contribuindo assim para uma maior exposição das falésias,
e consequente desgaste das mesmas.
A par com a falta de areia, as alterações climáticas
que têm originado uma subida da temperatura média do
planeta e causam o derretimento de enormes placas
glaciares originando uma subida do nível médio das
aguas, é
outro factor determinante para a “saúde” da costa
Portuguesa e em particular das falésias. Em Portugal o
nível médio das águas sobe
anualmente em media 1,7 milímetros, o que
significa que no final deste século teremos um aumento
entre os vinte centímetros e um metro.
Pode não parecer muito, mas se medidas não forem
tomadas, esta subida poderá traduzir-se na “morte”
da maioria das nossas falésias. Para
nós pescadores , este facto é de uma importância
extrema, já que a nossa segurança é posta em causa.
Muitas
das falésias de Norte a Sul de Portugal são locais de
excelência para a prática da pesca, pois não são
raras as vezes que se capturam grandes exemplares nestas
zonas. As varias cavidades cavadas na rocha durante
anos,
são o sitio ideal para a fixação de moluscos e
crustáceos , como o mexilhão e o caranguejo. O mar
forte que geralmente caracteriza as zonas de falésia,
acaba por ser um meio selectivo natural no que se refere
á sobrevivência dos indivíduos de cada espécie, pois
só os maiores e mais fortes exemplares têm a
capacidade de sobreviver ás condições extremas que
têm que enfrentar para chegar ao melhor alimento.
Por
essa mesma razão, muitas vezes inocentemente o pescador
arrisca a sua vida ao tentar chegar e pescar no tão
desejado “local perfeito”.
Em Portugal há muito a fazer para a protecção da orla
costeira, e obviamente no que diz respeito á segurança
das pessoas nestes locais, mas enquanto esperamos que as
autoridades tomem noção do problema e decidam de uma
vez por todas sair do impasse em que nos encontramos,
resta-nos ter algumas cautelas quando decidimos pescar
em falésias.
O
Tipo de falésia
|
|
Existem
vários tipos de falésia, tanto no que diz respeito ao
material de que são compostas (rochas ou areia), como
na forma que estas adquirem com o passar dos anos.
Nunca se devem escolher falésias “cavadas”, ou seja
em que o topo esteja mais saliente que a base, ou
simplesmente entre es dois pontos haja um desgaste mais
acentuado. (fig.1)
Neste tipo de falésia é tão perigosos pescar no topo,
como na base da mesma.
No topo pela obvia instabilidade que este apresenta, já
que fica num “vazio” , sem pontos de sustentação.
Na base, pela razão também obvia que no caso de
ocorrerem queda de pedras, iremos estar na sua rota.
Geralmente
através de uma observação simples, facilmente
chegamos á conclusão que não devemos ali estar, já
que muitas das vezes são visíveis as fissuras
alguns metros atrás do limite da falésia, quer
seja em terreno rochoso, arenoso ou misto.
Quando tiver que escolher, opte por um local que lhe
pareça mais estável (fig2), mas ainda assim não o
deve considerar totalmente seguro, já que é bem provável
que existam pedras ou blocos prestes a cair. Observe
sempre a base das falésias, de forma a verificar se
existem pedras que apresentem sinais de terem caído
recentemente, por exemplo pedras com terra ainda
agarrada, pequenos pedaços de vegetação, ou se estas
apresentam uma cor diferente das restantes.
|
|

Fig.1

Fig.
|
 |
|
Preparação
para a pesca.
Quando
decidimos ir á pesca
para uma falésia, surgem duas opções, ou pescamos em
altura, no topo , ou descemos até ao nível da água,
mas em qualquer uma destas situações devemos ter
alguns cuidados tanto na preparação de todo o material
como na escolha do mesmo.
Devido á sua exposição, normalmente as falésias são
locais ventosos e frios (por vezes até mesmo no Verão),
por isso os cuidados devem começar na escolha do vestuário.
O frio aliado ao vento diminui em muito a concentração
e a mobilidade do pescador, por isso mesmo deve-se
escolher roupas quentes mas que permitam
o máximo de mobilidade. Vestir 5 camisolas e
depois não conseguir levantar um braço, não é uma
boa opção.
|
|
O
calçado é um dos itens mais importantes, já que é o nosso
ponto de contacto com o solo, e a nossa estabilidade muito vai
depender dele. O ideal são as botas tipo “montanha” com a
sola bem rugosa e “cardada”, mas não demasiadamente rija
ao ponto de não se ter qualquer tipo de sensibilidade. Por
vezes a rocha húmida
transforma-se em autentico gelo, e mesmo com botas a
queda é quase certa se houver distracções. A
escolha do material de pesca varia bastante consoante o tipo
de pesca que escolhermos.
Na pesca ao
fundo, em altura, o material escolhido deve ser robusto, o
chamado “material pesado”. As canas devem ser fortes e com
tamanhos a cima dos 5m, para que seja possível
recuperar o peixe (ou simplesmente a chumbada) sem que este
venha a roçar na “parede”, sem haver uma necessidade de
nos abeirarmos muito (demasiado) da borda do precipício.
Na acção de pesca a cana deve ser mantida sempre numa posição
estável de forma a que, se sofrer um
forte ataque de algum peixe grande, não haja o perigo
da mesma cair falésia
a baixo.
O carreto deve ser robusto e com uma boa capacidade de linha e
o ideal é ter um bom compromisso força/velocidade.
As linhas devem ser fortes e de qualidade. Uma linha madre com
o diâmetro 0.40 ou 0.45 dá-nos a confiança necessária para
trabalharmos o peixe e recuperá-lo.
Quem pesca em altura
corre sempre o risco de
ferrar um peixe que exceda as capacidades da linha ou
até mesmo do carreto ou da cana na hora de o recuperar falésia
a cima. Por isso mesmo um instrumento imprescindível é a
“rabeca” ou “cesto”. Este é um
instrumento feito em rede que se “engata” na linha
mestra e depois faz-se deslizar até ao anzol. Com a ajuda da
corda que a “rabeca” possui coloca-se o peixe no seu
interior e em seguida puxa-se falésia a cima. Assim
consegue-se recuperar o peixe sem esforçar cana, carreto e
linha.
|
|
Outra
atenção que devemos ter é a de fazer uma selecção
do tamanho
do peixe que vamos capturar. Como? A utilização
de anzóis te tamanho médio/grande garante, com algumas
excepções, que apenas o peixe médio/grande ficará
ferrado.
E porquê esta selecção?
Visto estarmos a pescar em grande altura, (50 ,
60 metros) se capturarmos um exemplar a baixo do tamanho
permitido, de nada vai servir o acto de o devolvermos ao
mar, já que o impacto da queda no mar, certamente que o
mata imediatamente ou lhe infringe graves lesões.
Se pelo contrario, optar por descer a falésia para
pescar mais junto da água, então aí os perigos são
redobrados e os cuidados também devem ser.
De
preferência deve-se sempre ir acompanhado. É
assustadora a ideia de que no caso de nos acontecer
alguma coisa, podem-se
passar varias horas ou dias sem que ninguém
saiba o local onde estamos. No entanto, se não for possível
ir acompanhado, sirva-se das novas tecnologias e faça-se
acompanhar de um telemóvel, embora não seja um
instrumento muito fiável, pois na maioria dos casos não
teremos rede na base de uma falésia (por vezes nem na
praia). O melhor mesmo é dizer a alguém o local exacto
onde vai estar.
Neste caso
devemos escolher um material mais ligeiro, canas mais
curtas, carretos mais leves, a fim de facilitar o seu
transporte, e visto que vamos pescar ao
nível do mar podemos optar por uma pesca mais fina,
quer seja á bóia ou ao fundo.
Para transportar o material na descida e na subida, que
deverá ser unicamente o indispensável,
uma mochila grande e cómoda que permita levar
tudo no seu interior, incluindo canas telescópicas e
baldes de engodo, é de uma grande utilidade, já que
permite ao pescador ficar com as mãos livres para se
segurar, e proporciona um maior equilíbrio. Existem
alguns modelos destas mochilas no mercado. Á noite, as
lanternas de cabeça também se revelam muito úteis.
|
|

|
|
Em
certas zonas, como por exemplo no Litoral de Sintra,
existem locais que
aos olhos do pescador mais
comum parecem totalmente inacessíveis, mas não
são raras as vezes que alguns dos pescadores locais,
grandes conhecedores da zona, se aventuram e arriscam a
sua vida para ter acesso aos melhores pesqueiros.
Alguns dos precipícios só são vencidos com a
ajuda de cordas, que os próprios pescadores colocam no
local. Outra prática
comum nestas zonas de grandes falésias, é a passagem
para as chamadas “Pedras ilhadas”.
Estas
“pedras ilhadas” ficam geralmente acessíveis
durante curtos períodos da baixa-mar, e algumas delas só
mesmo em marés de lua. É durante esse curto período
de tempo que o pescador passa para a pedra, onde irá
ficar isolado, sem acesso a terra, durante a próxima maré, ou
seja aproximadamente 12 horas. Geralmente só os
pescadores mais experientes se arriscam nestas
investidas, pois o grande conhecimento que têm da zona,
permite-lhes correr um “risco calculado”... pelo
menos o previsível!
Também
aqui devemos ter o cuidado de fazer uma selecção das
capturas, e embora esta possa não passar pela utilização
de anzóis maiores, já que podemos capturar peixes de
pequeno porte como o carapau, devemos tentar manter o
pescado vivo e em boas condições, para que se escolham
os melhores exemplares. E porquê? Tendo em conta que no
final da pescaria nos espera uma violenta subida da falésia,
temos que contar com as limitações de espaço e peso
que é possível transportar. Se a pescaria correr bem,
é bem provável que no final seja necessário fazer uma
selecção do peixe que “vale a pena” guardar. Se
tivermos por exemplo 3 sargos de 1kg e 6 tainhas de
500gr, e o espaço e peso já não permita levar todos,
é bem provável que se opte pelos 3 sargos, e é nessa
altura que se torna importante que o resto do pescado
esteja em condições de sobrevivência, para serem
devolvidos ao mar.
|
Nota Final.
As
falésias embora tenham um aspecto imponente e robusto,
são elementos que dependem de um sensível equilíbrio
que deve ser preservado. O pescador, por mais pequeno
que se sinta diante de uma falésia, deve ter a consciência
que os seus actos terão uma acção directa
nesse equilíbrio que garante a “vida” da falésia.
Tenha
o cuidado de deixar sempre o local limpo, livre de matérias
que levarão anos e anos a decompor-se.
O desafio que lhe deixo é simples, limite-se a deixar
tudo como encontrou. Será assim tão difícil?
|
|
 |
Pedro
Vieira
|