Robalo de 3kg por causa de um cigarro.

 

Caros companheiros de pesca e carregamento de grades... Venho aqui deixar o relato do meu melhor feito deste ano, até à
data. Foi na noite de 15 para 16 de Abril em Porto de Barcas. 
Nem sequer era para ir à pesca, mas o bichinho mordeu-me e vamos embora. Lá chegado, por volta das 21.00h, verifiquei que à entrada da praia não estava ninguém a desenvolver esta nobre actividade da pesca. Como estava um pouco para o "calão", levei apenas uma cana (a minha Gertrudes) e após as devidas "formalidades" e "protocolos" lá lancei a pesca devidamente armadilhada com dois anzóis bem enfeitados com casulo.
 Ali estive um bom bocado, cana na mão, de sentir peixe nada, já meio arrependido de não ter ficado em casa a xonar quando aparece perto de mim um velhote, armado com um daqueles "canelons" do tempo da 2ª guerra, que mais parecia um panzer, artilhado com um carreto tamanho XXL extra grande decerto também desviado de algum museu, com uma cedazinha para aí calibre 0.70. Cumprimenta-me, pergunta-me se pode pescar perto de mim, ao que anuí. Toca de iscar a cavilha pendurada no panzer com uma sardinha inteira e zás... splash..., ela lá pra dentro. 
Bem, conversa daqui e dali, contou-me histórias de antigas (leia-se jurássicas) pescas, etc., e a páginas tantas diz-me que de há 40 anos a esta parte vem sempre a este local fisgar um bom robalo a meados do mês de Abril. Mas que é só um e mal o apanhe só volta ao presente pesqueiro no ano seguinte. Sorri claro, e apreciei o interessante ritual.
 A cavaqueira continuou e lá para as 22.30h sinto 2 puxões na Gertrudes e toca de tirar a àgua do poço com a calma que se recomenda. A minha alguma experiência dizia-me "vem aí um robalote"... o que se veio a confirmar. "Pelo menos este caixote já você não acarta hoje para casa" disse-me o velhote. Bom, por volta das 23.30h, o meu companheiro resolve despedir-se com um simples "ainda não é hoje, talvez amanhã... já não tenho idade ara estar aqui ao relento de castigo... até depois". Novamente só, decido "vou ali mais abaixo dar uma guitarrada a ver se está por ali algum cliente que queira apanhar o meu elevador" e caminho cerca de 100-150 mts para Sul. Ponho a Gertrudes a lavar a loiça, olho prá cebola e estipulo "quando for meia-noite em ponto dou corda aos sapatos e ala que se faz tarde". Cravo o caniço na areia e aproveito para escorrer a àgua às azeitonas. Acendo um cigarro, e após algumas fumaças olho pró relógio e... meia-noite em ponto! 
"Bom" pensei eu, olhando para o cigarro que ía a meio "já agora acabo o cigarro e depois levanto ferro". Quando dou a última passa no dito e o mando fora, a minha Gertrudes (coitadinha) leva com 2 cacetadas daquelas de criar bicho. Com a adrenalina a sair pelas orelhas, corri pra cana, estiquei o fio e... nada... nada... NADA!?!?!?... Começo a enrolar, soltando os inominável impropérios da praxe "seu isto, seu aquilo, seu aqueloutro, tinhas de apanhar a Gertrudes sozinha, cobarde...etc., etc... Bom " pensei eu "já vi este filme, na hora de ir embora aparecem estas tentações que nos fazem ficar mais 1 ou 2 horas para nada." então resolvi " já que queres música, só te canto mais uma e depois vou mesmo". Isco, lanço aproximadamente para o mesmo local e não passaram 10 segundos quando sinto um tremelique suave na Gertrudes. "Bolas, fui lançar outra vez para tirar algum porta-chaves do charco" pensei. Começo a enrolar e apercebo-me de folga na seda. A dado momento, sinto um peso fora do comum mas as turras eram fracas. Continuei a enrolar e quando pressinto que o peixe estaria a 5-6 mts da margem (o mar era muito manso com rebentação só na margem e declive bastante pronunciado na areia até à àgua) é que foi o elas. O danadinho começou a sentir a falta de àgua e as turrazinhas passaram a ser puxões mais a sério, embora não muito convincentes mas que me afiançavam que era peixe pesado. 
Bem, tendo em conta a rebentação e o declive da areia, esperei até vir uma onda que me ajudasse a pôr o peixe em seco e assim foi. Quando o vi, lembrei-me logo do velhote e pensei "olha, se calhar era o dele... mas como não traz coleira com nome, paciência". Fiquei curioso de porquê um robalo com este tamanho ter sido relativamente fácil de tirar da àgua, dele não ter dado aquelas corridas desabridas tão comuns a estes pitéus e verifiquei que o anzol vinha cravado na "língua" e talvez lhe doesse muito quando puxava, o que me facilitou muito esta cobrança, ainda por cima sozinho. Chegado a casa, pesei-o e tinha 3,035 kgs. Moral da história: Não fosse o cigarro ir a meio à meia-noite e eu não teria pescado este robalo (pelo menos naquele dia...hehehe).

 

Santos Ramiro

Enviado  a 13-06-04.