Uma lição de humildade.


Decorria o mês de Agosto, mais um, a sardinha anda gorda, mês de se engodar ao fundo durante a noite, o cheiro da maresia enche-me o peito, assim que chego ao pesqueiro.

Lá ao longe vindas de Sul para Norte, as traineiras de Matosinhos seguem em fila, o tótótó... delas é-me familiar, desde pequenino que as ouço, o farol de Leça dá-me as boas noites com o seu som lamentoso, enquanto alguma névoa de espalha preparo o engodo com as mãos, sardinha fresca em bolas grandes com areia, preparo o lanço, conto as vagas , uma, duas, três e lá vai a bola desfazendo-se em bons pedaços mar adentro, chamando-os, a esses formidáveis Robalos, endoidados pela fartura de Sardinha no mar.

A Norte acende-se um cigarro, pela posição do boné, é o meu mestre Zé Maria, a engodar também, Homem raçudo de Angeias, o melhor dos melhores, foi com ele que aprendi, como ele aprendeu com o Pai dele, como todos nós aprendemos algo a lidar com a vida.

As horas passam, o dia começa a clarear, o Zé já lá não está, trago sempre o colete das amostras comigo, reparo que a água está branca, a névoa limpou-o, as vagas estão intercaladas, monto rapidamente um boiao e um raglou, dirijo-me para o pesqueiro engodado do meu amigo, pois a posição era a melhor para lançar o boiao entre as vagas, procurando o peixe que se tivesse aproximado do pesqueiro.

Vi nitidamente aquela boca enorme sugando a amostra , desembraiei, trabalhei-o entre a espumaça, bicho formidável, o seu dorso brilhava aos primeiros raios de sol, cansei-o, és meu já não podes lutar mais, porque lutas, é desigual a nossa luta, eu nasci Homem, espécie dominante sobre todas as espécies porque não desistes?

Por fim rendeu-se, trouxe-o para uma pequena língua de areia, velhote, devia ter entre 5 a 6 kgs, de boca aberta olhava para mim sem compreender o que tinha acontecido, deixei-o estar, entorpecido pela vitoria decidi  que seria uma próxima vaga a entregar-mo, e ela veio, trouxe-mo á minha mão, passo-lhe a minha mão pela barriga encosto-o á bota calça, esperando que a tensão da linha o sustenha até a agua se ir embora.

Mas algo se passou, a linha deixou de estar tensa, o Robalo ficou mais leve, com o resto das forças que lhe restava, esgueirou-se entre as minhas pernas, olhou para mim pela ultima vez, adornou um pouco, e desapareceu entre a espuma, levando-me o raglou dentro da sua boca como troféu...

Desde esse dia compreendi, a verdadeira força que temos, vem da nossa capacidade de tentarmos ser humildes ao longo da nossa vida, e aquele velho Robalo ensinou-me isso mesmo...

A vida continua, um novo Agosto se passará, novos e velhos Robalos já tirei entretanto, também os meus cabelos já não são tão escuros assim, mas sempre que passo no pesqueiro vem-me sempre á memoria aquele peixe, talvez um dia a gente se volte a encontrar, e se ele estiver mais velho ainda e eu também, talvez o devolva á agua e ai talvez eu esteja feliz, e tenha de facto compreendido o sentido da minha existência...

 

António Simões.

Enviado  a 15-09-2005 por António Simões.