| Os mestres pescadores. |
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Farto de apanhar grades resolvi seguir o conselho do meu amigo Rui e fazer uma pescaria a Sul do Tejo, "pelo menos sempre se apanham umas cavalas o que é óptimo para o moral", costuma ele dizer. A juntar a isto o facto de pretender trazer o meu irmão para o vício, o que não se consegue com baldes vazios. Madrugamos como habitualmente, gostamos de ver o sol nascer, é um espectáculo que sempre que podemos presenciamos e que permite uma visão única da fauna, tal como foi ver um coelho atrapalhado à frente do carro. Chegados ao pesqueiro uma constatação, há pescadores piores que os porcos pois só assim se justifica o estado de sujidade do pesqueiro, um local de tamanha beleza paisagista estragado daquela maneira, não mudamos de local porque o único que conhecia mais a sul estava já ocupado. Preparamos o material, tentado ignorar o lixo, e chumbadinha para a água, primeiras picadelas e sai um polvo, começávamos bem, mais um sargo e sarguetas que eram devolvidas. É então que sinto um puxão que me ia levando a cana, estando distraído a ver o sol que nascia, o peixe estava ferrado, a cana e o fio gemiam, apresei-me a soltar a embraiagem, esperando não ser tarde de mais, o acarrete cantava dando fio ao bicho que louco se tentava livrar daquela prisão, esticão atrás de esticão foi perdendo força e deixou-se ver, era um belo sargo com mais de kilo, fiquei contente por finalmente poder usar a cesta por mim feita, adaptada de uma manga. De súbito um grito rouco do meu irmão "olha" disse enquanto apontava para o horizonte, foi então que levantei o olhar e os vi. A cerca de 50m uma barbatana escura submergia e deslizava nas águas com uma suavidade impressionante, cortando o mar como uma gaivota rasga os céus. Agora passada a emoção inicial víamos que este golfinho não estava sozinho, mais 8 formavam com ele uma linha que passava perpendicular à costa. Num instante desapareceram tapados pelas rochas que formavam a pequena enseada onde nos encontrávamos. Mas o seu desaparecimento foi breve, logo reapareceram a cerca de 200m, desta vez saltando e agitando as águas, formando o que começou a parecer um circulo e rapidamente se tornou visível. Espectador habitual dos programas de vida selvagem, reconheci o procedimento de caça, tinham encurralado um cardume e agora o círculo tinha-se fechado e apertado, a agitação era grande e um frenesim louco tinha invadido aqueles simpáticos animais que tão graciosamente tinha passado perto. Entretanto gaivotas e afins vieram juntar-se à festa, oportunistas que nunca deixam passar uma oportunidade, banqueteavam-se com os despojos destes grandes mestres pescadores. Nos minutos em que assistia a tudo isto, uma grande frustração abatia-se sobre mim, porque tinha deixado a câmara fotográfica em casa, por ir já muito carregado? Mas nunca mais acontece, nem que lá fique material de pesca. Quando voltei à realidade lembrei-me do sargo na ponta do fio, era tarde, já tinha voltado para as profundezas, mas não teve importância, podíamos não apanhar mais um Bodião sequer que o dia já estava ganho, sargos há muitos e aquele ficou a crescer, quem sabe se na próxima, ainda maior o voltarei a ferrar. Mas espectáculo como o que nos foi dado a ver acontece uma vez na vida. Ver os verdadeiros Mestre em acção ao vivo.
Carlos Costa |
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Enviado a 26-09-2005 por Carlos Costa. |