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Com
estes dias quentinhos o final de tarde num rio de montanha é
mágico!
O rio explode de vida com milhares de insectos a eclodirem num
curto espaço de tempo. As trutas não deixam passar ao lado
este banquete e não param de comer tudo o que podem,
aproveitando sobretudo a fase em que as ninfas emergem do
fundo para a superfície para por fim ganharem asas depois de
vários anos como ninfas no fundo de um rio.
Os meus olhos deliciam-se ao ver uma pequena efémera acabada
de eclodir batendo as asas ainda fracas para preparar o seu
primeiro voo, algumas conseguem-no, outras não. Muitas vezes
as trutas apanham-nas em pleno voo fazendo o meu coração
bater cada vez mais forte.
Algumas trutas comem no final de uma corrente, e eu sentado
numa pequena pedra espero pacientemente pelo momento certo
observando como estas comem uma e outra vez... Não é necessário
ter pressa, as trutas não mudam de sitio enquanto comem.
Depois de uma delas comer algumas vezes, de silhueta baixa faço
uma aproximação e com um lançamento preciso coloco a pluma
cerca de 1m à sua frente. Neste momento o mundo para, parece
que apenas existo eu e aquele maravilhoso peixe que espera por
mais uma oportunidade. Antes da pluma pousar na água já
estou a imaginar a trutas a saltar sobre ela... mas será que
irá acontecer?
A linha estica no ar e a pluma pousa delicadamente sobre a
superfície assemelhando-se a uma pequena efémera que desce o
rio depois de morta, esta começa a deslizar pela superfície
e quando passa por cima da truta ela apanha a pluma sem pensar
duas vezes!!! Foi para momentos como estes que vivi pensei eu
naquele momento como em todos os outros em que apanho um peixe
à pluma...
A truta debate-se por voltar à liberdade enquanto eu me deixo
levar pelo momento escutando a brisa e a água fresca do rio a
correr por entre as pedras. Por fim senti a sua pele tingida
de várias cores, como se tivesse sido pintada por um artista
pois nunca tinha visto nenhuma igual... era linda...
Depois de a ter na mão, delicadamente retiro o anzol sem
farpa (estes anzóis não ferem tanto os peixes como os
tradicionais e retiram-se com maior facilidade), e com um
sorriso coloco a mão na agua, abrindo-a lentamente enquanto a
truta recupera a sua respiração, voltando de seguida para o
seu meio para nunca mais a ver.
Depois de apanhar mais alguns peixes, sentei-me numa pedra a
ver o espectáculo que o rio me estava a oferecer, trutas a
comer, insectos a nascer, voar e a morrer. Mais um ciclo de
vida terminou naquele final de tarde, mas eu ao soltar as
trutas senti que para elas o ciclo de vida ainda estava a começar,
ficando com a esperança de que dentro de um ano consiga ver a
mesma truta, com mais alguns centímetros no mesmo local
lutando pela sua vida.
José
Rodrigues.
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