Final de uma calma tarde de Abril.

 

Com estes dias quentinhos o final de tarde num rio de montanha é mágico!
O rio explode de vida com milhares de insectos a eclodirem num curto espaço de tempo. As trutas não deixam passar ao lado este banquete e não param de comer tudo o que podem, aproveitando sobretudo a fase em que as ninfas emergem do fundo para a superfície para por fim ganharem asas depois de vários anos como ninfas no fundo de um rio.

Os meus olhos deliciam-se ao ver uma pequena efémera acabada de eclodir batendo as asas ainda fracas para preparar o seu primeiro voo, algumas conseguem-no, outras não. Muitas vezes as trutas apanham-nas em pleno voo fazendo o meu coração bater cada vez mais forte.

Algumas trutas comem no final de uma corrente, e eu sentado numa pequena pedra espero pacientemente pelo momento certo observando como estas comem uma e outra vez... Não é necessário ter pressa, as trutas não mudam de sitio enquanto comem.

Depois de uma delas comer algumas vezes, de silhueta baixa faço uma aproximação e com um lançamento preciso coloco a pluma cerca de 1m à sua frente. Neste momento o mundo para, parece que apenas existo eu e aquele maravilhoso peixe que espera por mais uma oportunidade. Antes da pluma pousar na água já estou a imaginar a trutas a saltar sobre ela... mas será que irá acontecer?

A linha estica no ar e a pluma pousa delicadamente sobre a superfície assemelhando-se a uma pequena efémera que desce o rio depois de morta, esta começa a deslizar pela superfície e quando passa por cima da truta ela apanha a pluma sem pensar duas vezes!!! Foi para momentos como estes que vivi pensei eu naquele momento como em todos os outros em que apanho um peixe à pluma...

A truta debate-se por voltar à liberdade enquanto eu me deixo levar pelo momento escutando a brisa e a água fresca do rio a correr por entre as pedras. Por fim senti a sua pele tingida de várias cores, como se tivesse sido pintada por um artista pois nunca tinha visto nenhuma igual... era linda...
Depois de a ter na mão, delicadamente retiro o anzol sem farpa (estes anzóis não ferem tanto os peixes como os tradicionais e retiram-se com maior facilidade), e com um sorriso coloco a mão na agua, abrindo-a lentamente enquanto a truta recupera a sua respiração, voltando de seguida para o seu meio para nunca mais a ver.

Depois de apanhar mais alguns peixes, sentei-me numa pedra a ver o espectáculo que o rio me estava a oferecer, trutas a comer, insectos a nascer, voar e a morrer. Mais um ciclo de vida terminou naquele final de tarde, mas eu ao soltar as trutas senti que para elas o ciclo de vida ainda estava a começar, ficando com a esperança de que dentro de um ano consiga ver a mesma truta, com mais alguns centímetros no mesmo local lutando pela sua vida.

 

José Rodrigues.

Enviado  a 27-04-03 por José Rodrigues